Colunas   quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O além do susto: terror, pós-horror e o poder do jump scare

Com a estreia de "Annabelle 2: A Criação do Mal", fizemos um panorama da arte de dar sustos e sua importância para os filme de terror.

Está tudo silencioso. Um leve ranger do assoalho indica que alguém está andando, mas, no escuro, você não sabe quem é. As sombras parecem se deslocar de maneira irregular pelo quarto, mas não há movimento que justifique isso. A música é um silvo baixo, grave e tenso. A cena, como um todo, parece morta.

Essa é a hora perfeita para um demônio/assassino/boneco saltar sobre a tela, acompanhado por um som agudo e alto, para fazer os espectadores gritarem e pipoca voar em câmera lenta pelo ar da sala de cinema.

jump scare é a técnica que filmes, jogos e mesmo músicas aperfeiçoaram aos longo das décadas para dar um susto em sua audiência. Inicialmente uma ferramenta para tornar mais intensa a experiência cinematográfica, o jump scare se tornou alvo de críticas por muitas vezes ser usado como muleta para filmes mais preguiçosos se eximirem da responsabilidade de ter conteúdo, dependendo totalmente dos sustos para agradar os espectadores – ao ponto de críticos considerarem o jump scare um subgênero ruim dos filmes de terror. Com a chegada de “Annabelle 2 – A Criação do Mal” às telonas Brasil afora, o Cinema Com Rapadura vem debater o uso desta ferramenta ao longo das últimas décadas, sua relevância no terror contemporâneo e o advento do pretenso “pós-horror”.

Fique confortavelmente tranquilo em seu assento e, se estiver em dia com seu cardiologista, viaje conosco por este elemento tão basilar do cinema de horror.

A Madrugada do Jump Scare

jump scare, como ferramenta, consiste basicamente em quatro elementos: uma situação de perigo, uma segurança momentânea, e finalmente uma virada súbita na imagem – com algo ou alguém surgindo abruptamente na tela – e um elemento sonoro, como um grito ou uma elevação na música, para concluir seu efeito. Sendo assim, é possível observar que o jump scare não é uma invenção recente, visto que o susto existe desde que o mundo é mundo e que o cinema é cinema.

Filmes clássicos de terror já utilizavam o elemento com primor muito antes de algumas atividades se tornarem paranormais. “Psicose”, de Hitchcock, lançado em 1960, conta com dois momentos jump scare que não só funcionam como são cruciais para a narrativa: a cena da revelação de que a Sra. Bates já estava morta há bastante tempo, com a virada rápida da cadeira, só perde para uma das cenas mais memoráveis da história do cinema.

Em “Tubarão”, 1975, de Steven Spielberg, vemos como a tensão é conduzida com o famoso tema de somente duas notas ao longo do filme, mas o jump scare nos encontra quando Hooper (Richard Dreyfuss) decide investigar um navio. Primeiramente, ele acha um dente de tubarão e, quando acreditamos que já estamos seguros, Hooper faz outra descoberta.

Outro jump scare incrível e bem contextualizado, que só agrega ao filme, é aquele em “Carrie: A Estranha”, dirigido por Brian De Palma e lançado em 1976. Já estamos no final do longa e parece que tudo de ruim que poderia acontecer, já aconteceu. Carrie voltou para casa após o baile de formatura mais sangrento de que se tem notícia. Os elementos mais uma vez estão lá: o risco iminente do baile acabou, e agora a protagonista está de volta à segurança de sua casa, até que sofre um último ataque. A metalinguagem entra em cena quando nós, espectadores, achamos que o nosso perigo de tomar um susto acabou – estamos na última cena do filme, o que mais poderia acontecer? É aí que “Carrie” usa uma técnica que se tornaria um clichê em alguns anos, mas que, na época, foi realmente chocante.

Por falar em chocante, em 1980 outro filme baseado em uma obra de Stephen King ganharia os cinemas para traumatizar sua audiência: “O Iluminado”, pedra angular do terror, dirigido por Stanley Kubrick, também reconheceu a utilidade do jump scare em uma cena igualmente crucial e aterrorizante. Depois de acompanharmos o menino Danny (Danny Lloyd) e seu triciclo por um bom tempo, o garoto encontra o proibido quarto 237, se aproxima da porta, tenta abri-la… E nada acontece. A construção está feita: achamos que estamos seguros enquanto Danny retorna para seu estiloso meio de transporte e retoma sua exploração dos corredores. A verdade, no entanto, é bem diferente do que esperávamos, e rapidamente a calma se transforma em susto, e este se torna horror enquanto a cena se desdobra.

Ainda na década de 80, os filmes slasher – a saber, aqueles de serial killercom suas lâminas cortantes – iriam se valer do jump scare à exaustão, ao ponto de a trope narrativa cair no ridículo. Antes do desgaste, contudo, um slasher se destacou em sua capacidade de nos dar um belo susto: “Sexta-Feira 13”. As mortes acabaram e, após decapitações e flechadas na garganta, Alice (Adrienne King) está exausta, flutuando em sua canoa no plácido Crystal Lake. Assim como em “Carrie”, o susto é diluído pela ausência de consequência à cena, mas não deixa de ser um baita jump scare da mesma forma.

Os filmes de terror vão com a vantagem de que a audiência os assiste buscando sentirem medo; filmes de suspense, porém, precisam ganhar seu público com uma tensão permanente. Contudo, isso não quer dizer que eles não possam usar um jump scare para deixar seus espectadores ainda mais na ponta da cadeira. Tomemos “Se7en: Os Sete Crimes Capitais”, de 1995, como exemplo. Estamos em um filme neo-noir, com Brad Pitt e Morgan Freeman investigando um serial killer que mata as pessoas baseado nos Sete Pecados Capitais bíblicos. Ao investigarem uma casa, a tensão criada pela música, o ambiente escuro e os incontáveis aromatizadores de carro pendurados nos preparam para uma revelação: algo terrível será encontrado ali. Quando os detetives descobrem um corpo putrefato, a tensão dá lugar ao nojo e ao incômodo, mas o diretor David Fincher tem algo a mais para nós em sua manga.

Mestre em ter coisas na manga, o diretor M. Night Shyamalan também nutre um apreço por jump scares em seus filmes de suspense. Famoso por outra ferramenta, o plot twist, Shyamalan também demonstrou dominar a arte do susto ao longo de seus thrillers – mais destacadamente em “O Sexto Sentido“. Com diversas sequências que se enquadram nesta categoria, e flertando com o terror em sua temática e abordagem, Shyamalan nos assusta diversas vezes ao longo desse clássico do suspense de 1999, como nesta cena em questão.

Os anos 2000 viram a ressurreição do jump scare em múltiplas obras que o utilizaram a contento. Saindo dos Estados Unidos rapidamente, um filme que se destaca em seu uso de jump scare é o terror espanhol “[REC]”, de 2007. A repórter Ángela Vidal (Manuela Velasco) iria somente acompanhar o trabalho do corpo de bombeiros por uma noite, mas acaba presa dentro de um prédio no qual os moradores parecem subitamente serem atacados e afetados por algo animalesco. Entre bebês suspeitos e câmeras tremidas, “[REC]” tem jump scares que pegam o espectador mesmo que ele veja as imagens em câmera lenta.

2007 foi um bom ano para os filmes de terror na Espanha, visto que também foi o ano de lançamento de “O Orfanato”. Na trama, Laura (Belén Rueda) volta a morar no orfanato de sua infância com sua família e, após o aparecimento de uma estranha assistente social, eventos sinistros começam a acontecer na casa. Apesar de sua premissa um tanto quanto bizarra (visto que se você vai morar em um orfanato abandonado, o mínimo que se espera são fantasmas irritantes), o filme trabalha com personagens convincentes, atuações efetivas e, é claro, jump scares poderosos. Um deles se destaca por ser, de certa forma, uma desconstrução da ferramenta: não há surpresa no ataque gradual, mas a tensão criada faz com que o jump scare seja dividido em vários “jump scarezinhos” menores que, ainda assim, lhe pegam no contrapé.

Além destes filmes, estão frescos em nossas memórias franquias como “Atividade Paranormal”, a qual é alocada no subgênero de found footage, e “Invocação do Mal”, que já teve uma sequência e os spin-offs “Annabelle” e “Annabelle 2 – A Criação do Mal” – sobre os quais comentaremos mais a frente. Com essa miríade de filmes ótimos citados acima, os quais utilizaram o jump scare como uma ferramenta efetiva para a construção do seu terror, é impossível afirmar que este elemento é, em si, ruim. Assim sendo, quais são as críticas que o jump scare recebe ao ponto de alguns filmes de terror contemporâneo buscarem superá-lo?

A Maldição do Jump Scare

Nos anos 1980, com a proliferação dos filmes slasher e suas continuações, algumas “subtropes” foram incorporadas ao jump scare – por exemplo, o retorno súbito do assassino/entidade para um último susto antes do fim do filme, ou o fake scare, no qual o cineasta prepara uma situação e a desarma, apenas para de fato assustar no momento seguinte. Diversas cenas nestes padrões vêm à mente, e foi exatamente aí que residiu a decadência momentânea do jump scare: o seu sucesso desencadeou um uso exagerado, e seu posterior desgaste.

Embora ainda tenhamos demonstrações bem-sucedidas de jump scare ao longo de todas as décadas, como listamos acima, as intermináveis sequências de filmes de terror e os muitos filmes de assassinos em série foram uma onda que lavaram o cinema de horror dos anos 80 e início dos anos 90. O cansaço do público foi tanto que a única forma de conseguir ainda convencer as pessoas a irem ao cinema assistir gente-cortando-gente foi através da paródia. Exemplo máximo do que chamamos de neo-slasher, “Pânico“, de 1996, cresceu e tornou-se um clássico cult, mas só conseguiu fazê-lo por não se levar a sério, andando na linha tênue entre o terror, a sátira e o ridículo. Tendo sucesso nesse equilíbrio, a audiência deu o salvo-conduto para a franquia abusar de todos os clichês do gênero – incluindo o jump scare.

Ainda assim, como toda onda tem que passar, o slasher morria ensaguentado no chão, enquanto o irônico neo-slasher também se sufocava sob o peso de suas múltiplas continuações: “Eu Sei o Que Você Fez no Verão Passado” (1997) e “Lenda Urbana” (1998) buscaram reinventar a roda, mas acabaram por tornarem-se paródias de si mesmos por se levarem a sério demais.

O caso é que, mesmo com críticas desfavoráveis e bilheterias pouco interessantes, os estúdios ainda se interessaram nestes filmes devido ao seu baixo orçamento, no geral, e pela proliferação do terror no home video. Favorito de jovens e adultos em suas reuniões com amigos, os slashers neo-slashers rendiam grande retorno nos (saudosos?) aluguéis de videocassete. Aqueles filmes de terror de baixo orçamento que ficaram famosos simultaneamente por uma quantidade de sangue inversamente proporcional à qualidade de seus roteiros foram apelidados de cheap thrills – “sustos baratos”, em tradução livre.

Isso despontou em outra característica que demonizou o jump scare na indústria cinematográfica: os filmes apostarem somente em sustos e esquecerem de contar uma história. Com sucesso praticamente garantido, graças ao seu custo baixo e alto lucro, os estúdios passaram a investir em pequenas produções com premissas óbvias, mas de retorno garantido.

 “Boneco do Mal”, 2016.

Essa tendência seguiu firme e forte por muitos anos, avançando até o fim dos anos 2000 e década atual adentro; ainda são muitos os exemplos de filmes ocos como “Boneco do Mal” (2016) – que abandona uma trama promissora pela metade para se dedicar a ser uma película, na melhor das hipóteses, medíocre – e “O Sono da Morte” (2016) – o qual termina sem saber se quer ser um suspense ou um terror, mas decidido em ser chato. Essa insistência, embora continue atraindo um público considerável, gerou um desgaste na audiência, que começou a se deixar testar novos horrores em filmes que conseguem passar duas horas sem se dedicar a construir um susto – em uma espécie de volta às raízes.

Desta nova nuance do cenário cinematográfico, surgiu, em um artigo do The Guardian, o termo que se propõe ser a antítese do jump scare: o “pós-horror”.

A Vingança dos Jump Scares

De acordo com Steven Rose, o criador do termo, “pós-horror” se refere a filmes que decidem quebrar as regras do gênero terror: seja matando a “garota final” que deveria sobreviver ou evitando a tentação de colocar os personagens em situações absurdas, mas, principalmente, tirando o foco do jump scare e se voltando para um “horror verdadeiro” – aquele que você de fato leva para casa e te assombra depois dos créditos finais.

Dentre os exemplos de “pós-horror” estão filmes como o excelente “A Bruxa” (2015), “A Colina Escarlate” (2015), “Demônio de Neon” (2016) e o surpreendente “Corra!” (2017). Estes filmes teriam em comum o seu foco em ser algo além, levando os espectadores a trazerem para si horrores que ultrapassem os pulos na cadeira, de forma a se distanciar dos outros “sustos baratos” que povoam os cinemas atualmente.

 “A Bruxa”, 2016.

Contudo, o termo é rejeitável desde sua concepção. O primeiro problema está no termo em si: os filmes mencionados acima não se encontram “além do horror”, como o termo sugere. Clássicos citados anteriormente, como “O Iluminado” e “Carrie” já eram excelentes há mais de 30 anos e de forma alguma eram sustos baratos. Enquanto o primeiro explora as raízes da loucura enquanto trabalha o sobrenatural, o segundo analisa o peso da repressão religiosa principalmente no âmbito sexual, enquanto vemos uma garota manifestar poderes paranormais – e esses são só dois exemplos. Chamar filmes atuais de “pós-horror” somente por terem conteúdo é desmerecer os clássicos do horror que os precederam.

O que nos leva ao segundo problema, que é a inerente prepotência do termo. Analisando o cinema como entretenimento, muitos filmes contemporâneos não se propuseram a serem profundos e ainda assim entregaram boas experiências cinematográficas. A franquia “Atividade Paranormal” perdeu-se em suas muitas continuações, mas o filme original, no estilo found footage – “filmagem encontrada”, em tradução livre – utilizou-se de jump scares e um baixo orçamento para contar efetivamente a história de um casal que se vê atormentado por algo estranho em sua casa. Utilizando bem esses artifícios para deixar a audiência próxima da realidade aterrorizante que apresentava, o primeiro “Atividade Paranormal”, de 2007, ainda é o filme mais lucrativo da história, tendo um lucro de quase 20.000% em cima de seu orçamento“.

 “Atividade Paranormal”, 2007.

Outro filme recente que usa jump scares sem medo de ser feliz, e não deixa de ser um bom filme por causa disso, é o mal traduzido “Corrente do Mal” (“It Follows”) (2015). Tratando sobre sexo, DSTs e culpa em um cenário meio anos 80, meio anacrônico, o filme consegue apelar tanto para os jovens que pagam o ingresso para tomar uns sustos quanto aqueles que sentam esperando ver algo a mais de um filme de terror.

Com a estreia de “Annabelle 2 – A Criação do Mal”, não poderíamos deixar de citar a franquia “Invocação do Mal”. O filme homônimo, de 2013, construiu um cenário muito semelhante aos clássicos fantasmagóricos dos anos 80: entre assombrações e poltergeists, o casal de investigadores paranormais, Ed (Patrick Wilson) e Lorraine (Vera Farmiga) Warren, precisa descobrir o que está atormentando uma família modesta no estado de Rhode Island. Com um ar de clássico mas em roupagem moderna, “Invocação do Mal” se tornou um sucesso de bilheteria e crítica, bem como seu sucessor, “Invocação do Mal 2” (2016). Embora seu spin-off, “Annabelle”, tenha uma qualidade bem inferior aos filmes que o originaram, este também faturou consideravelmente nas bilheterias, se tornando um dos filmes mais rentáveis da história.

 “Invocação do Mal 2”, 2016.

Independente de o quanto se gosta ou não desses filmes, as acusações que tornam o jump scare o vilão destas produções não faz sentido; como qualquer ferramenta, o susto não é um instrumento inerentemente mau, embora esteja desgastado. Tudo depende da forma com que o jump scare é desenvolvido e posto em cena, cabendo a “Annabelle 2 – A Criação do Mal” a tarefa de provar que o artifício ainda respira, mesmo que cansado.

Entre sucessos de bilheteria e/ou de crítica, o jump scare prova que ainda tem pavio para queimar. De qualquer forma, se o pavio acabar e a vela se apagar, sabemos que devemos pensar duas vezes antes de nos virarmos para ver o que é aquela sombra mais densa que parece se mover silenciosamente na escuridão – como essa aí, bem atrás de…

E você? Quais sustos cinematográficos mais lhe marcaram? Quais filmes deixaram boas e más impressões por causa do uso do jump scare? Nos conte nos comentários aqui embaixo!

Erik Avilez
@erikville

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  • Lucas Verly

    Excelente texto!

    • Thanks! 😀 lembrou de mais algum jump scare que você curta?

      • Lucas Verly

        Gosto muito da franquia Sobrenatural também, principalmente dos dois primeiros.

  • Willian Bongiolo

    Excelente <3 Desde quando ouvi esse termo "pós-terror" fiquei enojado com a pretensão nele inserida. Quanto ao Jump Scare eu os adoro haha. Mesmo naquelas obras mais bobinhas como o remake de Sexta Feira 13 quando o Jason volta do fundo do mar para o cais.

  • Betotruco

    Os de Carrie no final e Se7en o cara da “fome” não tem como não pular da cadeira do Cinema ou da sala! Rsrsrs
    Não sou aficionado pelo gênero mas esses filmes e mais Invocação do Mal são ÓTIMOS independente do gênero em que querem enquadrá-los.
    No mais, ótimo artigo! Parabéns!

  • Raul Diogenes

    “Pós-horror” Neologismo barato. Se sempre que se quebrar um tropo for criar uma palavra nova em breve teremos a pós-ação, a pós-comedia e daqui a 10 anos o pós-pós horror.