Colunas   terça-feira, 06 de junho de 2017

Por que os trailers dos filmes nos contam tudo?

Por que cada vez mais temos que fugir do material promocional de um filme para ter alguma surpresa nos cinemas?

Toda vez que sai um trailer novo entramos naquela mesma dança. Por um lado, queremos muito ver o vídeo e saber um pouco da trama que nos espera no cinema; por outro lado, sabemos que aquilo pode nos revelar mais do que queremos saber, e não há muita forma de ter certeza em qual das duas opções você vai cair até você de fato assistir ao bendito.

Recentemente tivemos o terceiro e último trailer de “Homem-Aranha: De Volta ao Lar“, o qual, somando ao segundo trailer, faz com que não fiquemos com muitas dúvidas sobre o filme. Os fãs e críticos apontam que, a não ser que haja alguma reviravolta realmente fantástica, já sabemos todo o arco narrativo que se desdobrará, faltando somente alguns detalhes para fechar a trama.

Peter pensando que queria umas surpresas no filme.

Essa superexposição não foi privilégio do Cabeça de Teia. “Exterminador do Futuro: Gênesis” entregou sua maior revelação nos trailers – e no pôster -, obrigando toda a equipe executiva do filme a dizer que aquilo não era tudo, e que um plot twist maior estava por vir – o que não aconteceu, revoltando a audiência de um filme que já seria ruim mesmo sem a expectativa criada em cima dele. Outro crime foi o trailer de “O Segredo da Cabana“, o qual revelava um elevador sob a construção do título e um laboratório suspeito, empobrecendo a surpresa sobre a qual o filme é construído. Ah, e se lembra do Apocalipse no trailer de “Batman v Superman – A Origem da Justiça“?

Filmes baseados em fatos também são habilidosos em fazer isso. “Capitão Phillips“, nos últimos segundos do trailer, mostra uma tropa SEAL e um resgate em um bote. O mesmo acontece com “O Impossível“, no qual, ao final do vídeo, vemos a família se reunindo após a tsunami. Embora as histórias sejam baseadas em fatos e não haja reais surpresas, há uma trama sendo desenvolvida no filme, e a audiência pode escolher não saber seu desfecho antes de vê-lo no cinema. Nesses casos, só teve esse privilégio quem não viu esses trailers antes do filme de sua sessão.

Vale lembrar, inclusive, que esta prática não é de hoje: o trailer de “Carrie: A Estranha“, de Brian De Palma, mostrava a icônica cena do banho de sangue e a destruição que se seguiu. Sem contar que o trailer de “Um Drink no Inferno“, lá em 1996, já nos mostrava que o filme não seria só sobre dois ladrões em fuga, como o início do longa de Robert Rodriguez sugere.

Citar esses exemplos agora é mais fácil, visto que todos eles já têm anos de lançados, de forma que dificilmente estragamos a experiência de alguém que de fato se interessou por esses filmes, mas à época estas informações eram altamente relevantes para esses longas. Então por que entregar pontos importantes dos filmes nos trailers?

Um dos motivos mais citados para isso é a relação de confiança entre os estúdios e seus filmes. Quando se trata de uma franquia consolidada, como “Star Wars“, é fácil convencer multidões a sair do conforto de seus lares e reservar seus lugares para ver a nova aventura da ópera espacial. Agora, quando falamos de uma franquia esquecida por quase 30 anos, no caso de “Mad Max”, e lembramos que o Homem-Aranha sofreu duas repaginações em dez anos, é mais fácil entender por que o estúdio faz questão de te mostrar todas as melhores cenas (ou todas as cenas mesmo), tentando te provar que esse é um filme que vale seu trânsito, estacionamento, pipoca e ingresso.

Também pesa o fato de que, na maioria das vezes, a diretora/o diretor não tem poder de interferir na produção do trailer, sendo comum vê-lo quando o mesmo já está pronto. Com o responsável principal pela história do filme incapaz de dizer o que deve ser surpresa ou não na trama, fica nas mãos dos estúdios e das produtoras dos trailers escolher o que vai ser revelado. Em outras palavras, o estúdio quer nos vender seu filme, e ele nem sempre se importa de te jogar spoilers para fazer isso, caso seja necessário.

No fim das contas, o máximo que nos é permitido é não assistir aos trailers quando saem no YouTube e canais semelhantes – o que não é muita coisa, visto que agora todo o resto do mundo/internet sabe o que tem nesse vídeo, e você dificilmente vai conseguir chegar ao cinema inocente sobre a trama; mesmo que consiga, nada impede que o trailer passe enquanto você espera por outro filme, e suas mãos ocupadas por pipoca e refrigerante não vão poder cobrir seu rosto (o que pelo menos vai te poupar o constrangimento de ser aquela pessoa tampando os olhos durante os comerciais). Só podemos aceitar que nossa capacidade de nos surpreender é minada, e torcer para que a nossa experiência no cinema não seja prejudicada por isso.

Ah, e deletar todos os nossos (ditos) amigos de Facebook que mandam spoiler gratuito. Não somos obrigados a testemunhar esses horrores.

Erik Avilez
@eriksemc_

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