Colunas   sábado, 18 de março de 2017

Kong: A Ilha da Caveira – ou Monstro à Moda Oriental

Entenda como "Kong" se aproxima mais dos filmes de monstro orientais do que aqueles que estamos acostumados a ver em Hollywood.

Há uma vertente na psicologia que, em vez de tratar da inteligência como algo único, fala sobre as “múltiplas inteligências”. À grosso modo, a teoria diz que as pessoas não têm todas a mesma inteligência por pensarem de formas diferentes. Sendo assim, pedir para alguém com uma inteligência artística ser brilhante em matemática é como pedir para um macaco voar: caso ele consiga fazê-lo, ele não o fará bem, por não ser a sua natureza. Da mesma forma, quando vemos “Kong: A Ilha da Caveira” e pedimos que ele tenha um roteiro fantástico e personagens profundos estamos empurrando um macaco de um penhasco e esperando que ele alce voo.

Isso se dá porque, dos kaijus japoneses aos alienígenas estadunidenses, são muitas décadas de história e várias formas de fazer criaturas torturarem a raça humana para a nossa alegria. Esses anos de experiências e histórias nos trouxeram até “Kong“, o mais recente filme a nos trazer o famoso macaco gigante para as telas do cinema. Dividindo opiniões, as críticas feitas ao longa se relacionam muito com a forma que nós, ocidentais, gostamos dos nossos monstros, enquanto este Rei Kong nos foi apresentado à moda oriental.

De modo geral, a maneira como enxergamos o papel de criaturas no cinema do ocidente é fundamentada na forma que Steven Spielberg aperfeiçoou. “Tubarão“, de 1975, além de ser o primeiro blockbuster de verão, também foi o filme que nos mostrou uma maneira diferente de perceber o papel de um monstro. Em grande parte oculto pelas águas, o tubarão do título serve como pano de fundo para que Spielberg desenvolva o drama de seus personagens, usando o monstro como um MacGuffin – uma ferramenta de roteiro para avançar a história – através do suspense.

A técnica não demorou a se popularizar. Além de uma redução no custo da produção, ao mostrar a criatura menos vezes, este método se mostrou popular com o público, que embarcava na tensão crescente e esperava pela grande revelação. Spielberg fez escola, e exemplos não faltam; dentre seus muitos seguidores, J.J. Abrams destacou-se por ter aprendido bem a lição, como demonstrou em “Super 8“, e supervisionando a direção de Matt Reeves em “Cloverfield – O Monstro“. No gênero de terror, a técnica praticamente se tornou regra, e, mesmo fora do cinema, “Stranger Things” recentemente mostrou que a fórmula é efetiva de forma bem abrangente.

O mundo oriental, por outro lado, não enxerga seus gigantes e criaturas monstruosas da mesma forma. Tomando Godzilla como exemplo: quando o verdadeiro amigão da vizinhança enfrentava Mothra, a mariposa gigante, ou mesmo Kong, o foco não se mantinha nos seres humanos que cercavam o conflito, mas o combate em si. O objetivo não era desenvolver os dramas pessoais, mas dar ao público o que eles buscavam: boas cenas de monstros contra outros monstros. Ou robôs igualmente colossais.

Até porque não há como justificar que Kong lutou contra um Kong-robô gigante para que pudéssemos saber mais da história das pessoas, não é mesmo?

E não há problema algum nisso. Talvez não estejamos acostumados porque nosso contato com criaturas adoravelmente tenebrosas se restringe às produções hollywoodianas – de “Jurassic Park” ao horroroso “Godzilla” de 1998, no qual a coisa mais aterrorizante foi o quão ruim o filme conseguiu ser – e à escola ocidental de Spielberg de lidar com eles. “Kong“, com tudo, se afasta deste padrão, se aproximando das produções que seguem a visão oriental – como os filmes do estúdio Toho ou sua cria, “Círculo de Fogo“.

Sendo assim, faz menos sentido dizer que “Kong” tem personagens rasos ou um roteiro pouco brilhante; é como culpar um macaco por voar mal: ele nunca se propôs àquilo, e nem mesmo tem a capacidade de fazê-lo. Pelo contrário, o filme encontra sua força exatamente por abraçar sua natureza e agir de acordo com ela, mostrando que a Legendary Pictures aprendeu com os erros de “Godzilla“, de 2014, que não sabia se focava no monstro ou nas pessoas, e acabou fazendo os dois pela metade.

Kong: A Ilha da Caveira” tem consciência plena de que é um macaco, e que, por isso, não conseguirá voar. Assim, ele se propõe a ser o melhor macaco que consegue e trabalha com o que tem em mãos: atores cumprindo seus papeis de coadjuvante para que o protagonista – os monstros gigantes – possam brilhar. Dentro do seu cânone oriental, com ótimas cenas de ação e um espírito aventureiro, “Kong” cresce e se destaca entre os demais filmes do gênero – terminando suas duas horas de duração como um macaco gigante. Em todos os sentidos.

Erik Avilez
@erikville

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  • Alan Bitencourt

    E o filme cumpriu muito bem essa função e ele é muito bom.