Colunas   quarta-feira, 08 de Março de 2017

Elas em Ação: 10 filmes dirigidos por mulheres

Selecionamos uma lista de filmes dirigidos exclusivamente por algumas das mulheres mais talentosas do cinema.

Ao longo da história do Cinema, a mulher veio conquistando – aos poucos – seu espaço de importância e excelência. De donzelas em perigo sempre à espera de seu herói, elas se ergueram e transformaram-se em exterminadoras de aliens, heroínas especialistas em arcos, cavaleiras Jedi, líderes da revolução contra o Império, guerreiras amazonas, produtoras, roteiristas e diretoras.

É neste aspecto que o Cinema com Rapadura, em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, preparou uma semana especial com textos voltados à celebração das conquistas das mulheres no Cinema. Nesta coluna, foram selecionados 10 filmes dirigidos exclusivamente por mulheres cheias de garra e talento.

Pequena Miss Sunshine (Valerie Faris, 2006)

Olive Hoover (Abigail Breslin) é a caçula de uma família totalmente desajustada. O pai desenvolveu um método de auto-ajuda que é um fracasso, o filho mais velho fez voto de silêncio, o cunhado é um professor suicida e o avô foi expulso de um asilo por usar heroína. Nada funciona para a família, até que Olive é convidada para participar de um concurso de beleza infantil e, mesmo sabendo que a menina não tem chance alguma de ganhar o concurso (por estar acima do peso e fora dos padrões de beleza), eles decidem deixar todas as diferenças de lado e atravessar o país em uma kombi enferrujada para ajudar a realizar o sonho da menina.

Valerie Faris construiu uma sólida carreira ao lado de seu marido, Jonathan Dayton, através de sua inusitada criatividade em retratar a humanidade de seus personagens. Apesar de trabalhar durante anos na indústria da música e em comerciais de televisão, a marca registrada do casal esteve presente em todos os seus trabalhos. Em documentários musicais sobre bandas como The Ramones, The Smashing Pumpkins Oasis, Valerie sempre deixou claro seu interesse por retratar os membros da banda como pessoas além da fama. Quando a oportunidade de trabalhar em “Pequena Miss Sunshine” apareceu, Valerie comentou que sua única razão em aceitar o projeto foi a complexidade em retratar seis pessoas completamente diferentes e que desejava tornar os Hoovers uma família problemática e real, diferente dos retratos familiares perfeitos tão presentes em filmes americanos. O filme foi indicado a 4 Oscars, incluindo Melhor Filme e vencendo Melhor Roteiro Original.

Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow, 2008)

Um retrato intenso dos soldados de elite que possuem o trabalho mais perigoso do mundo: desarmar bombas em meio ao combate. Quando um novo sargento,  William James (Jeremy Renner), assume o comando de uma equipe altamente treinada em meio a um conflito sangrento, ele surpreende seus dois subordinados, Sanborn (Anthony Mackie) e Eldridge, ao coloca-los em meio a um mortal jogo de combate urbano e se mostrando totalmente indiferente à morte. Enquanto os soldados lutam para controlar seu líder, a cidade explode em caos e o caráter de James se revela de modo a mudar a vida de seus homens para sempre.

Kathryn Bigelow foi a primeira a mulher a ganhar o Oscar de Melhor Diretora e a quarta indicada da história. Desde o início de sua carreira, Bigelow se mostrava uma diretora apaixonada por cenas visualmente impecáveis e sequências de ações de tirar o fôlego. Aos 30 anos, dirigiu seu primeiro longa metragem, “The Loveless”, seis anos depois realizou seu primeiro filme de terror, “Quando Chega a Escuridão”, mas foi em “Caçadores de Emoção” de 1991 que a diretora ganhou destaque na indústria de cinema. Ao receber o prêmio da Acadêmia, Kathryn Bigelow dedicou a vitória a todas as mulheres das forças militares americanas e desejou que elas retornassem à salvo para casa. A diretora competiu ao lado do ex-marido, James Cameron no Oscar de 2010 e o venceu nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Filme.

Selma: Uma Luta Pela Igualdade (Ava DuVernay, 2014)

Cinebiografia do pastor protestante e ativista social Martin Luther King, Jr (David Oyelowo), que acompanha as históricas marchas realizadas por ele e manifestantes pacifistas em 1965, entre a cidade de Selma, no interior do Alabama, até a capital do estado, Montgomery, em busca de direitos eleitorais iguais para a comunidade afro-americana.

Ava Duvernay se formou na UCLA e sempre foi interessada em ritmo e cultura do hip-hop. Aos 22 anos começou a trabalhar em filmes publicitários e marketing, fundando a DuVernay Agency, sua pequena empresa de filmes especializados na cultura afro-americana. Ava dirigiu “I Will Follow” em 2010 e “Middle of Nowhere” em 2012, ambos com elenco predominantemente negro e, dois anos depois, ficou a cargo de “Selma”, a cinebiografia de Martin Luther King. Ava Duvernay foi a primeira diretora afro-americana a ser indicada ao Globo de Ouro e ao Oscar de Melhor Filme. Em 2016, Ava dirigiu “A 13° Emenda”, documentário que também concorreu ao Oscar e que denuncia a criminalização dos negros e o sistema penitenciário nos EUA.

Precisamos Falar Sobre o Kevin (Lynne Ramsay, 2011)

Eva (Tilda Swinton) nunca quis ser mãe e por isso tem uma relação complicada com seu filho Kevin (Ezra Miller), que mostra um comportamento violento e manipulador desde a infância. Após o garoto matar seus colegas de classe e ser detido, Eva acaba repensando sua vida e procura analisar os motivos da tragédia que destruiu sua família, enquanto tenta retornar à normalidade, enfrentando o preconceito e a rejeição da sociedade.

Lynne Ramsay é fascinada na experiência da infância e adolescência, retratando a ganância, culpa, morte e suas consequências na vida dos personagens. Com roteiros de poucos diálogos e muita exposição visual, a diretora é reconhecida por seus planos ousados, com imagens pouco comuns e simbolismo através do design musical. Estreando na indústria do cinema com “O Lixo e o Sonho” de 1999, retratando o trabalho infantil e a culpa de um jovem de 12 anos que acidentalmente causou a morte do melhor amigo, o longa foi aplaudido em Cannes e rendeu a Lynne o prêmio de Diretora Revelação no BAFTA Awards. Em 2002, venceu duas categorias no Festival de Cannes como Melhor Filme Estrangeiro e Direção com “Movern Callar”. Em “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, Ramsay desejou denunciar a hipocrisia da romantização da infância feita em Hollywood, e o filme venceu um total de 27 prêmios, incluindo Globo de Ouro, BAFTA e Screen Actors Guild Awards.

Encontros e Desencontros (Sofia Coppola, 2003)

Bob Harris (Bill Murray) é uma estrela de cinema, que está em Tóquio para fazer um comercial de uísque. Charlotte (Scarlett Johansson), por sua vez, está na cidade acompanhando seu marido, um fotógrafo workaholic (Giovanni Ribisi) que a deixa sozinha o tempo todo. Sofrendo com o horário, Bob e Charlotte não conseguem dormir. Eles se encontram, por acaso, no bar de um hotel de luxo, e em pouco tempo tornam-se grandes amigos. Resolvem então partir pela cidade juntos. A eles junta-se uma jovem atriz chamada Kelly (Anna Faris), com quem vão viver algumas aventuras pela cidade de Tóquio.

Sofia Coppola é reconhecida por retratar o aprisionamento de suas personagens femininas de forma melancólica e delicada. Seu primeiro filme, “As Virgens Suicidas” de 1999, retrata a repressão sexual sofrida pelas adolescentes por pais extremamente conservadores e religiosos. A obra lhe rendeu um Golden Lion e foi a primeira mulher a ganhar o prêmio, considerado o maior do Festival de Veneza. A diretora ganhou destaque novamente em “Encontros e Desencontros” que foi nomeado a quatro categorias no Oscar: Melhor Diretor, Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Roteiro Original, vencendo na última categoria. Em “Maria Antonieta”, ao contrário de muitas biografias sobre a Revolução Francesa, Coppola dedicou-se em retratar a rainha da França como um ser humano com falhas, medos e sentimentos, afastando-se da imagem estereotipada tão comum em outros filmes do gênero, fato que vêm se repetindo em todos os seus filmes: mulheres além do esteriótipo, lutando contra a repressão de seus próprios universos.

Psicopata Americano (Mary Harron, 2000)

Patrick Bateman (Christian Bale) jovem, branco, bonito e sem nada que o diferencie de seus colegas de Wall Street. Protegido pela conformidade, privilégio e riqueza, Bateman também um serial killer, que vaga livremente e sem receios em busca de uma nova vítima. Seus impulsos assassinos são abastecidos por um zeloso materialismo e uma inveja torturante quando ele encontra alguém que possui mais do que ele. Após um colega dar-lhe um cartão de visitas melhor que o seu em tinta e papel, a sede de sangue de Bateman surge e ele aumenta ainda mais suas atividades homicidas, tornando-se um perigoso e violento psicopata.

Mary Harron começou sua carreira trabalhando com a direção de documentários para a BBC TV e Channel Four, e fez seu primeiro impacto no cinema independente em 1996 com seu filme “Um Tiro Para Andy Warhol” indicado a dois prêmios no Festival de Sundance, incluindo para a diretora.  Ao começar a adaptação do livro “Psicopata Americano”seu projeto foi marcado por controvérsias e críticas à extrema violência e sexo, incluindo da própria Lionsgate Films, quando a diretora selecionou Christian Bale ao invés de Leonardo Di Caprio para o papel. Quando questionada sobre o papel do feminismo, Harron diz ter escolhido o cinema independente por ter uma maior aceitação com mulheres e minorias, fato que não acontece na televisão e indústria de Hollywood que, segundo ela, torcem para que você fracasse.

Educação (Lone Scherfig, 2009)

Jenny Carey (Carey Mulligan) tem 16 anos e vive com a família no subúrbio londrino em 1961. Inteligente e bela, sofre com o tédio de seus dias de adolescente e aguarda impacientemente a chegada da vida adulta. Seus pais alimentam o sonho de que ela vá estudar em Oxford, mas a moça se vê atraída por um outro tipo de vida. Quando conhece David (Peter Sarsgaard), homem charmoso e cosmopolita de trinta e poucos anos, vê um mundo novo se abrir diante de si. Ele a leva a concertos de música clássica, a leilões de arte, e a faz descobrir o glamour da noite, deixando-a em um dilema entre a educação formal e o aprendizado da vida.

Lone Scherfig começou sua carreira na área de publicidade e com 26 anos já ganhava prêmios por seu trabalho. Sua estreia como diretora foi com “The Birthday Trip” em 1990, vencendo o Grand Jury Prize e o Club Espace Award no Rouen Nordic Film Festival. Seu primeiro filme na língua inglesa foi “Meu Irmão Quer se Matar” de 2002, filmado na Escócia, recebendo diversas premiações por seu trabalho, inclusive o Audience Award no Hamptons International Film Festival. “Educação” foi baseado no roteiro de Nick Hornby e concorreu a Melhor Filme no Oscar 2010.

Babadook (Jennifer Kent, 2014)

Seis anos já se passaram desde a morte de seu marido, mas Amelia (Essie Davis) ainda não superou a trágica perda. Ela tem um filho pequeno, o rebelde Samuel (Noah Wiseman), e tem dificuldades para amá-lo. O garoto sonha diariamente com um monstro terrível e ao encontrar um livro chamado “The Babadok” reconhece imediatamente seu pesadelo. Certo de que Babadok deseja matá-lo, o menino começa a agir irracionalmente, para desespero de Amélia.

Jennifer Kent iniciou sua carreira de direção ao lado de Lars Von Trier, quando assistiu sua obra “Dançando no Escuro” e escreveu ao diretor pedindo para trabalhar como sua assistente e estudar sob seu conselho. Ao lado dele, ajudou a realizar “Dogville” e se recusou a estudar em escolas de cinema. Em 2006, dirigiu seu primeiro curta “Monster”, que foi exibido em mais de 50 festivais ao redor do mundo e em 2014 adaptou-o para um longa metragem denominado “Babadook”, filme ovacionado no Festival de Sundance na sessão de meia noite. Após a distribuição do filme nos cinemas, o diretor William Friedkin, de “O Exorcista”, comentou que nunca tinha visto um filme tão assustador quanto aquele. Jennifer Kent têm dado voz para as mulheres no mundo do cinema de horror através da imprensa, quebrando o preconceito de que mulheres não gostam de filmes do gênero.

Meninos Não Choram (Kimberly Peirce, 1999)

Teena Brandon é uma transexual que decide assumir sua identidade masculina, trocando seu nome para Brandon Teena. Ela passa a viver como sempre sonhou: apaixona-se por uma menina, se diverte com amigos e tenta se libertar dos medos e inseguranças. Porém, quando todos descobrem sua verdadeira identidade, uma onda de violência abala o local.

Kimberly Peirce fez sua fama ao adaptar o crime real contra a transexual Brandon Teena. Ainda na faculdade, Peirce ficou obcecada pela história de Brandon, um jovem que vivia no interior de Nebraska e foi estuprado e assassinado por dois rapazes que descobriram que Brandon, na verdade, havia nascido Teena. A diretora viajou para a cidade durante o julgamento dos criminosos e fez amizade com o repórter responsável pelo caso, tendo acesso a todos os documentos. Fascinada com a coragem de Brandon em assumir uma identidade masculina em um ambiente tão conservador e deixar-se amar uma mulher, Peirce homenageou o caso com uma tese de faculdade sobre o assunto e, mais tarde, dirigiu um longa metragem chamado “Meninos Não Choram”Além deste grande sucesso, Peirce também dirigiu “Carrie, a Estranha” de 2013 e a série “American Crime” de 2015.

Que Horas Ela Volta? (Anna Muylaert, 2015)

A pernambucana Val (Regina Casé) se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino (Michel Joelsas) vai prestar vestibular, Jéssica (Camila Márdila) lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.

Anna Muylaert é brasileira e nascida em São Paulo, em 1980 realizava curtas metragens e publicava textos críticos de cinema em revistas e jornais. Em 1989 participou da criação de programas infantis, como “Mundo da Lua” e “Castelo Rá-Tim-Bum”. Em 2002, dirigiu seu primeiro longa “Durval Discos” premiado no Festival de Gramado por Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Sete anos depois, lança seu segundo longa, “É Proibido Fumar”, vencedor de nove prêmios no Festival de Brasília, Melhor Filme do Grande Prêmio de Cinema Brasileiro e Melhor Direção APCA 2009. Com “Que Horas Ela Volta?” foi reconhecida internacionalmente no Festival de Sundance e no Festival de Berlim.

Todas essas talentosas diretoras têm em comum a determinação não somente realizar seus sonhos, mas para progredir em um cenário dominado por homens, ainda rodeado de preconceito e barreiras impostas às mulheres. Que elas sirvam de exemplo para qualquer cineasta mulher que ainda luta para conseguir seu lugar no mundo de Hollywood.

E vocês, têm alguma diretora favorita? Deixem nos comentários e aproveitem para citar alguém que ficou de fora!

Letícia Azevedo
@rapadura

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  • Caio Henrique

    Angelina Joulie?

  • Caio Henrique

    Angelina Jolie?

  • Hanna Rayssa

    Maravilhosas!

  • Filipe

    Não acho “Guerra ao Terror” a maravilha que a indústria disse, mas é absurdamente bem dirigido. Da Bigelow, “Zero Dark Thirty” é o meu preferido (além de ser um dos meus preferidos de todos os tempos).

  • Marco David

    Em breve, vcs terão que adicionar também a Patty Jenkins, que irá salvar o universo DC do cinema, tenho fé. hahahah