Colunas   domingo, 22 de janeiro de 2017

Heath Ledger – Nove Filmes em Nove Anos

Nove anos depois da morte do ator, relembramos seu impacto no cinema durante seus 28 anos de vida.

O número nove é, por definição, incompleto. Ao olhar para o 9, a sensação que temos é de algo que chegou consideravelmente próximo de sua perfeição e do ápice que pretendia, sendo interrompido por circunstâncias externas. Talvez isso seja uma herança de nossa época escolar: independente de quanto era a nossa média, um 9 era a promessa de que poderíamos ir além, e que havia um passo à frente ao nosso alcance.

Heath Ledger faleceu há exatos nove anos e, enquanto celebramos as conquistas inerentes à sua vida, também refletimos sobre como ainda temos a sensação de que, dada oportunidade e tempo, ele possuía a capacidade de superar a si mesmo em projetos vindouros.

Ledger ascendeu aos holofotes em 1999, com 10 Coisas Que eu Odeio em Você, e a primeira definição que o ator australiano recebeu no mundo artístico foi “queridinho de adolescentes” pelo mundo afora. Contracenando com Julia Styles, Ledger viveu um bad boy que se apaixona por uma garota a qual deveria conquistar em virtude de uma aposta. O estilo contrafeito que o ator imprimiu ao personagem fez com que ele ganhasse a afeição de diversas – e diversos – jovens, alcançando mesmo nossas terras brasileiras assim que o filme saiu no cinema e posteriormente em fita cassete.

Não tardou para que Ledger voltasse à atenção do público, e ele o fez com Coração de Cavaleiro, em 2001. Honrando seu arcaico nome de nascença, Heathcliff Ledger viveu William Thatcher, um camponês que passa a fingir ser um cavaleiro, não tardando para que suas habilidades façam com que ele ascenda em fama e prestígio. Com uma atuação honesta e digna tal qual seu cavaleiro sem classe, Ledger galgou mais um passo no seu caminho para o sucesso pleno, e então veio 2005.

2005 é um ano relevante quando falamos da carreira de Ledger por ser um ano consideravelmente diverso, tendo protagonizado o impressionante número de três filmes. O primeiro a ser lançado, Os Irmãos Grimm, talvez fosse melhor permanecer esquecido; com um roteiro raso, nem mesmo o carisma de Matt Damon somado ao de Heath conseguiu impedir o fraco desempenho. O último dos três foi Casanova, um filme menos pretensioso que também não agradou aos críticos. Ainda assim, entre o primeiro e o último, o que realmente importa é o que estava neste ínterim.

O Segredo de Brokeback Mountain foi um divisor de águas não só para Ledger como ator, mas para como nós, audiência, o enxergávamos. Sob a direção atenta de Ang Lee e tendo Jake Gyllenhaal protagonizando o filme ao seu lado, Heath foi capaz de transpassar as limitações que sua carreira anteriormente parecia estabelecer. Nos apercebemos que estávamos diante de um ator que, mais do que um potencial, de fato transformava essa capacidade em uma atuação intensa e relevante – e, assim, esperamos mais.

Tivemos um gosto prévio desta promessa em Candy, de 2006, no qual Ledger interpretou um poeta viciado em heroína, e o vimos absorver uma faceta de Bob Dylan em Não Estou Lá, de 2007, vivendo um ator que se deslumbra com os holofotes da fama. Em nossa realidade, no entanto, Ledger de fato voltaria a ter os canhões de luz sobre ele no ano seguinte.

Em Gotham.

Muito já foi dito sobre Heath Ledger como o Coringa emO Cavaleiro das Trevas. Adjetivos diversos foram lançados, como “definitivo”, “perfeito” e “entregue”. Muito, inclusive, debateu-se sobre a responsabilidade que o papel teria no desfecho do último ato da vida de Ledger. O fato é que, entre lendas urbanas e mitos cinematográficos, Ledger transcendeu não só o que era esperado, mas a própria concepção de atuação no papel: Heath Ledger foi o Coringa. E não só durante os 152 minutos de filme, mas nos meses que antecederam as filmagens – como aquele no qual ele se trancou em um apartamento, sozinho, para compor o que veríamos em tela. Contra todas as expectativas daqueles que ainda viam nele um ator de filmes adolescentes – fase que ele já havia abandonado há muito tempo -, ele foi essencial para o sucesso do filme. Em 2008, Heath Ledger se eternizou.

Também foi em 2008, no dia 22 de janeiro, que Ledger encontrou seu fim. Mas o que é um mero fim para quem se tornou infinito?

Tanto assim foi que chegamos a 2009, e ao nono filme de nossa resumida lista dos papeis do ator. Após trabalhar com Terry Gilliam em “Os Irmãos Grimm”, Ledger se reuniu com ele em O Imaginário do Doutor Parnassus, tendo infelizmente deixado o filme inacabado. Uma mudança no roteiro permitiu que a produção seguisse, tendo Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell compartilhando o personagem de Ledger em diferentes encarnações (estes atores, por sinal, doaram seus cachês no filme para a filha de Ledger, Matilda).

Nestes nove filmes, terminando em 2009, celebramos as vidas que Heath Ledger viveu e influenciou ao longo de seus 28 anos. Nove anos depois, olhamos para a carreira de fracassos inevitáveis, mas de constantes sucessos, e refletimos em como potenciais podem e precisam ser transformados em ações de forma diária; mesmo que jamais alcancemos a perfeição, a procura por ela, de forma saudável, nos estimula a não nos acomodarmos em nossas peles.

Enquanto olhamos para trás e saudamos Heath Ledger, acenamos também para o futuro que ele prometia, mesmo na excelência do seu presente, com uma estranha saudade do que ele poderia ter sido.

Erik Avilez
@erikville

Compartilhe

Saiba mais sobre


Conteúdos Relacionados


  • Tiago Tachard

    Erick, excelente texto! Mostra que tem o domínio do conteúdo e da escrita, mas nem por isso deixa de ter empatia e significado. Já fã seu das participações no Canal 42, te considero uma jovem grande promessa no mundo do jornalismo cinematográfico. Parabéns!

    • Poxa, mas que honra! Obrigado pelo comentário e pela confiança, espero continuar atendendo às expectativas! (:

      • Tiago Tachard

        Com certeza irá! 😀

  • Excelente texto. Completo e sensível na medida certa pra falar da bela carreira deste ator que nos deixou tão cedo. Fico imaginando o quanto mais ele teria feito se ainda continuasse vivo. Falando nisso, não como ficar sem ressaltar o quanto achei criativa a ideia de falar sobre o 9, tão próximo do 10 que simbolizaria perfeição. Parabéns e que venham mais textos como esse.

  • João Victor Fiorot

    Mais um textão! E ainda lembrou de Coração de Cavaleiro, vi bastante esse na sessão da tarde e na temperatura máximo com meus irmãos. A gente curtia pacas esses filmes de época. A associação ao número 9 foi muito criativa 😉

  • K’ssio Santos

    Não acredito que faltou mencionar Os Reis de Dogtown, contabilizando 10 filmes.