“LIBERDADE!”, brada o William Wallace de Mel Gibson em um momento seminal de “Coração Valente”, fita dirigida e protagonizada pelo próprio Gibson e lançada nas telas em 1995. A qual liberdade Wallace – baseado em uma figura histórica real – se referiu ao desferir essa palavra derradeira no longa?

No filme, que se passa na Escócia do século XIV, Wallace liderou uma rebelião dos habitantes locais contra a dominação dos ingleses, liderados pelo tirânico Rei Edward I, o Longshanks. Apesar da opressão sobre seu povo, Wallace era um homem de paz até a morte de sua amada Murron pelas mãos de um magistrado inglês após uma tentativa de estupro por um soldado dominador.

Depois desta tragédia e se vendo como um homem procurado, ele assume sua postura como líder de seu povo e parte para libertá-lo de seus tiranos, mesmo com o desagrado dos nobres locais, todos nos bolsos ingleses. Os dominadores tinham direitos até mesmo sobre as esposas dos locais na noite de núpcias, a chamada Prima Nocte.

A partir daí, Wallace consegue reunir os plebeus escoceses graças ao seu carisma e seu anseio por ser livre. E o que é ser livre, se não o direito de buscar sua própria felicidade, sempre respeitando a dos outros? Longshanks e seus cúmplices tratavam os escoceses como mero gado, se aproveitando de homens “nobres” que eram facilmente manipulados com ouro e terras para atingir seus objetivos mesquinhos.

Tais nobres, aliás, não passavam de sombras humanas, que não ligavam em ser manipulados por Longshanks, desde que recebessem seus pagamentos. Não se importavam com honra ou valores, a não ser os monetários. Deste modo, estavam com seus juízos entorpecidos pela ganância, escravos da conveniência e do ouro, sempre vestidos com trajes luxuosos e de aparência limpa, mas cujas almas eram sujas, poluídas.

Não importam os bens materiais que a pessoa possui, se ela tem o famigerado “rabo preso” com alguém. Aquelas coisas jamais serão realmente dela, se uma outra pessoa pode vir a tomar tais posses a qualquer momento. A valorização destas é meramente a glorificação dos grilhões que prendem o dominador ao dominado.

William Wallace era um homem do povo, que conhecia o sofrimento destes e notava quão forte era a mão da Inglaterra, sendo ele próprio uma vítima desta. Tendo perdido todos aqueles que amava para as injustiças inglesas, só restou a ele aquilo que faz dele um homem livre de amarras, a sua consciência. Tais perdas e o amor que tinha por sua terra e seus compatriotas eram o próprio fogo que abasteciam sua ânsia por alcançar a felicidade novamente, ser livre e viver em um país onde seus compatriotas também o fossem.

Este se tornou o seu objetivo, seu sonho. Um lugar onde todos pudessem tentar ser pessoas realizadas sem dependerem de mestres para tal busca. É uma meta nobre, no sentido mais verdadeiro da palavra, longe daqueles senhores que assim se declaravam. Uma bandeira pela qual ele e seus comandados acreditavam valer a pena sangrar, sofrer e morrer, sem pestanejar.

Ao se recusar abrir mão de seus ideais, Wallace busca assegurar que as futuras gerações não sejam privadas das mesmas coisas que ele, de uma vida de paz ao lado das pessoas que amam, do orgulho de caminharem em um país que pertence a todos os seus cidadãos, da oportunidade de perseguirem os seus sonhos. Em suma, a luta de Wallace era para ver seu povo libertado.

No Brasil de hoje, também presenciamos pessoas oprimidas pela violência, pela pobreza e pela ignorância. Tais males são acompanhados por um grupo de “nobres” que, como suas contrapartes da Escócia do século XIV, também se interessam mais por bens materiais do que pelo bem dos seus compatriotas.

Não precisamos de um William Wallace, com espada em punho e pintura no rosto no nosso país, mas de um povo que aceite lutar e fazer valer o direito que temos de buscar a felicidade inerente a todos nós. Esta sim é a verdadeira LIBERDADE.