Existe um anseio em todos os filhos em seguir os passos de seus pais. A relação entre a humanidade e Deus não chega a ser muito diferente. Mas existe um componente deveras egoísta em nossa ânsia de mimetizar nosso Criador, o desejo da raça humana em deixar algo para trás que diga “nós existimos, nós estivemos aqui”. Daí criamos obras de arte, computadores, cidades. Não só para satisfazer nossas necessidades básicas ou por mera conveniência, mas para, através da tecnologia, nos aproximar de Deus e alcançar a imortalidade.

Baseado no conto “Supertoys Last All Summer Long”, de Brian Aldiss, a produção de “A.I. – Inteligência Artificial” fora concebida pelo gênio cinematográfico Stanley Kubrick em colaboração com Steven Spielberg, que assumiu integralmente o projeto após o falecimento de seu colega, em 1999. Após passar anos em gestação antes da morte de Kubrick, Spielberg cria que seria um desperdício se o esforço empreendido por ambos se perdesse e realmente o seria, já que se trata de uma trama altamente relevante para a humanidade moderna.

O longa, lançado em 2001, nos apresenta a uma Terra onde as cidades litorâneas foram engolidas pelo mar, por conta do derretimento das calotas polares e com os recursos naturais insuficientes para sustentar uma demanda muito grande de pessoas, foram instituídas diversas restrições contra a natalidade, obrigando os humanos a construírem robôs, os mecas, para substituí-los nas mais diversas tarefas, seja nas construções ou nos bordéis. Alguns homens, crendo na máxima “se você constrói uma máquina para fazer o trabalho de um homem, está roubando algo do homem”. Mas, e se o próprio ser humano roubou algo dele mesmo, tal frase é válida?

Ora, dadas tais restrições, são poucos os casais que podem ter filhos, restringindo uma necessidade primordial da humanidade, que é amar e ser amado por uma criação sua. A partir daí e inspirado por uma perda pessoal, o visionário professor Hobby (William Hurt) cria David (Haley Joel Osment), o primeiro Meca capaz de sentir amor. Acolhido por Henry (Sam Robards) e Monica (Frances O’Connor), ele passa a experimentar a felicidade ao amar incondicionalmente sua mãe. No entanto, quando o filho biológico dos dois, outrora acometido por uma doença que o deixara em coma, miraculosamente se recupera, o conflito se instala naquele lar.

Para manter sua família, Monica se vê obrigada a abandonar David, que se vê perdido em um mundo que simplesmente não compreende. Ao lado de seu ursinho de pelúcia, Teddy, os dois se vêem aprisionados por um grupo de fanáticos anti-tecnologia, que enxergam no pequeno Meca a maior ameaça possível, uma máquina que irá substituir o amor de um filho. Escapando miraculosamente desse apuro, David encontra ajuda na figura de Gigolô Joe (Jude Law), um Meca amante que acaba se tornando seu pai e irmão. Ao lembrar-se da história de Pinóquio, o pequeno sai em busca de sua Fada Azul, que irá torná-lo um menino de verdade.

Através do amor, David, uma mera máquina, alcançou algo além de uma mera existência, tendo adquirido o que o filme define como a maior falha da humanidade e sua maior dádiva, a busca infindável pelo impossível e a vontade de perseguir seus sonhos. No entanto, “A.I.” propõe outra questão, esta de natureza moral: ao criar um ser capaz de amar e que necessita ser amado de volta, qual é a responsabilidade do ser humano em relação à sua criação? Pouco pensamos em relação aos nossos antigos computadores, videocassetes, walkmans ou CD Players, pois eles não possuem a capacidade de sentir, embora já nos tenham causado emoções quando os estávamos usando.

É bastante improvável que nós ou nossos filhos tenhamos de nos ocupar com tais questionamentos, já que nossas máquinas mais inteligentes não passam de criaturas mecânicas capazes de meros cálculos matemáticos ou de realizar tarefas simples. Mas, o que nós somos se não máquinas geradas biologicamente extremamente avançadas? A diferença está justamente no “sentir”. Haley Joel Osment, no que considero um dos momentos mais espantosos de atuação da década, nos mostra justamente o momento em que David para de ser um mero boneco e passa a amar sua mãe, com uma mudança de olhar e expressão, sendo este o marco zero de sua vida. Só a partir dali, passamos a nos importar com ele.

A preocupação de Spielberg e de Kubrick em ambientar David em um mundo que fizesse sentido não só para a história, mas para nós, é magnífica. Criando ambientes e objetos de cena diversificados, mas que ecoam nosso mundo atual, nós vemos um lugar que lembra o nosso tempo, mas que também aponta uma direção para a qual podemos seguir. Além disso, o design incrível dos robôs, colocados em cena pela TECNOLOGIA da Industrial Light & Magic ajuda a dar ainda mais verossimilhança ao que vemos na tela.

É uma pena que o epílogo inserido no final do filme acabe por ignorar a importância dessa identificação entre o que acompanhamos na estória e o que vivenciamos hoje, inserindo elementos alienígenas àquele universo, mas não importa, pois o recado já tinha sido dado. Foi através do impacto criado pela arte tecnológica que nós assistimos que Spielberg e Kubrick nos contaram uma história absolutamente humana. É essa a simbiose que devemos alcançar, da tecnologia e da humanidade caminhando juntas para criar emoções e nos dar um futuro e, mais importante ainda, nos projetar no amanhã.

P.S.: Há um motivo para a sigla “A.I.” não ter sido traduzida no título nacional da película. Em japonês, a palavra “Ai” significa “amor”.