Adaptação do conhecido livro homônimo escrito por Khaled Hosseini, "O Caçador de Pipas" é um excelente e tocante filme, sendo mais um exemplar da até agora irretocável filmografia do diretor alemão Marc Forster.
Existe um velho ditado que diz "o mal prevalece quando homens de bem se omitem". Essa máxima é uma das forças que regem os trágicos acontecimentos mostrados em "O Caçador de Pipas", adaptação do best-seller homônimo (o qual não li). No entanto, existem outras coisas movendo aqueles acontecimentos tragicamente reais que vemos em cena, bem mais dotadas de alento que o dito popular: o amor e a redenção. Mas, como dito no filme, tudo tem seu preço, com o longa sendo o retrato da jornada de um homem que busca se libertar de uma omissão que lhe assombrou desde a infância.
O filme começa mostrando o protagonista Amir (Khalid Abdalla) recebendo, junto de sua esposa Soraya (Atossa Leoni), caixas contendo seu livro recém-saído da editora, em meados do ano 2000. Prestes a partir para a turnê de divulgação do livro nos EUA – país onde vive desde a adolescência -, os planos de Amir são mudados ao receber um telefonema de um velho amigo de sua família, Rahim Kahn (Shaun Toub), aconselhando-o a voltar para casa.
A partir daí, a narrativa volta para o final dos anos 1970 no país natal de Amir, o Afeganistão. Naquele momento, apesar de pobre, o povo daquela nação ainda tinha certa inocência e esperança. Alguns habitantes conseguiam prosperar, mesmo com a crescente ameaça de revoluções, seja por parte dos extremistas religiosos ou pelos comunistas. Nesse cenário, o abastado Amir (Zekeria Ebrahimi) cresce como um menino com um óbvio talento para a escrita, mas sem muita coragem para se defender sozinho, algo que muito entristece e preocupa o pai do garoto (Homayoun Ershadi).
Amir sempre está ao lado de seu fiel amigo Hassan (Ahmad Khan Mahmidzada), filho do principal empregado de seu pai e descendente de uma tribo considerada inferior pela elite do país. Sua condição de subordinado é algo que o torna alvo de um grupo jovens racistas liderado por Assef (Elham Ehsas). No entanto, a dupla de amigos, a despeito das ameaças de Assef, está mais preocupada com o torneio de pipas que irá agitar a cidade de Cabul.
Enquanto Amir trata de vencer seus adversários, partindo a linha de seus oponentes no as manobras de sua pipa, Hassan é o "caçador" do título, sempre pegando as pipas que seu amigo vence, além de assumir o papel de protetor deste, dada a passividade com que ele encara a vida. No entanto, após um fatídico incidente envolvendo Assef e seus comparsas, Amir começa a se afastar de seu melhor amigo, enxergando nele apenas o reflexo de uma vergonha que ele teme encarar mais do que tudo.
Após uma série de atitudes impensadas por parte do futuro escritor, a dupla é separada de vez após a invasão russa ao Afeganistão, quando Amir e seu pai fogem para a América. Na "terra das oportunidades", os dois tentam reconstruir suas vidas, com o garoto crescendo e buscando se tornar o escritor que sempre sonhou, enquanto ajuda seu pai em seus trabalhos e tenta conquistar o amor de outra refugiada afegã, filha de um tradicionalista ex-general do exército de seu país natal.
Voltando aos ano 2000, Amir recebe de Kahn a notícia da morte de Hassan nas mãos do regime talibã que tomou conta do Afeganistão. Ele explica que tanto seu velho amigo quanto a esposa deste foram executados por um capricho dos oficiais de lá e pelo preconceito quanto às origens deles. O casal deixou um filho, Sohrab, que fora levado para um orfanato. A partir daí, Amir deverá enfrentar os fantasmas de seu próprio passado tentando resgatar o filho daquele que lhe tinha como um irmão.
Contando com um elenco quase totalmente desconhecido, Marc Forster mais uma vez mostra seu talento como diretor de atores, extraído deles (alguns que nunca haviam trabalhado frente às câmeras antes) atuações fenomenais. Zekeria Ebrahimi e Khalid Abdalla vivem Amir em sua infância e idade adulta, respectivamente. O jovem Ebrahimi é bastante expressivo, conseguindo colocar o medo que seu personagem sente de confrontos de qualquer espécie com poucos olhares, gestos e até mesmo com a hesitação em proferir suas falas.
Esse temor é a característica-chave por trás do personagem e o garoto consegue fazer com que o público compreenda isso, que é continuado por Abdalla em sua interpretação como a versão mais madura do protagonista. Ele tenta, aos poucos, se livrar de tal defeito, seja manifestando junto ao pai sua decisão de ser um escritor profissional ou deixando uma história nas mãos de Soraya. O ator, que já havia chamado atenção em "Vôo United 93", nos faz embarcar com sua interpretação na jornada em busca de redenção empreendida por Amir, que atinge seu ápice em um pesado confronto pessoal no Afeganistão.
Já Ahmad Khan Mahmidzada, ator de 12 anos natural de Cabul, tem uma comovente participação como o fiel Hassan. Possuindo uma química perfeita com Ebrahimi, seu principal companheiro de cena, Mahmidzada emociona o público com as diversas provas de amizade e cumplicidade que seu personagem mostra em relação a Amir, todas elas sempre colocadas em tela através do jeito inocente e cativante do seu jovem interprete.
A eficiência do trabalho realizado por Mahmidzada é tamanha que auxilia a Elham Ehsas, que vive o jovem vilão Assef na tarefa de tornar seu personagem ainda mais detestável. Preconceituoso, arrogante e brutal são alguns dos adjetivos que podem ser usados para descrever o facínora adolescente. Após cometer um indizível ato contra Hassan, ele consegue ser frio o bastante para humilhar, mesmo sem palavras, o garoto durante uma festa na casa de Amir. Simpatizante dos mulás que tomaram o poder após a expulsão dos soviéticos, na idade adulta (Abdul Salam Yusoufzai) se torna um proeminente membro do regime talibã, sem perder alguns de seus velhos hábitos nada religiosos.
Shaun Toub tem uma participação curta, porém marcante no filme, vivendo o sábio e leal Rahim Kahn, velho conselheiro do pai de Amir que tenta colocar o filho de seu velho amigo no caminho certo. Já a bela Atossa Leoni tem pouco a fazer como Soraya, mas aparece bem nos seus poucos minutos em cena.
O grande destaque do filme vai para Homayoun Ershadi, como o progenitor do protagonista. Homem de grande moral, com um caráter forte e resoluto, ele tenta colocar um pouco de força na personalidade por demais pacífica do filho, sendo seu fracasso nesta empreitada o maior desapontamento. Rico e influente no Afeganistão pré-invasão, se vê obrigado a partilhar uma existência modesta junto ao filho nos EUA, mas sem jamais perder o senso ético, criando seu filho para ser um bom homem.
O roteiro de David Benioff é bastante amarrado, repleto de rimas narrativas e diálogos fortes, comprovando o talento do escritor, embora peque um pouco com exageradas passagens de tempo em alguns atos da história. Por exemplo, o pai de Amir, em dado momento da projeção, trabalha em um posto de gasolina e, algumas cenas depois, já é comerciante em uma feira, não sendo explicado o motivo de sua mudança de atuação profissional. No entanto, isso não passa de mero preciosismo de minha parte, considerando o sucesso do roteirista em recriar, para a mídia cinematográfica, situações e personagens complexos advindos do universo literário com tamanho sucesso.
Mostrando mais uma vez sua inventividade, o cineasta Marc Forster busca sempre meios visualmente interessantes de contar histórias igualmente cativantes. Ao mesmo tempo em que os duelos de pipa encantam o público graças à beleza plástica daquelas imagens, somos chocados com a crueza das imagens em determinados momentos, como no confronto entre Amir e os talibãs ou na cena do estádio de futebol. Coordenando muito bem com sua equipe de direção de arte, Forster faz um retrato vívido do Afeganistão em suas diversas tragédias.
O diretor utiliza-se em sua equipe técnica vários profissionais com quem já trabalhou em seus longas anteriores, o que garante um maior entrosamento entre todos os envolvidos. Dentre eles, temos o diretor de fotografia Roberto Schaefer, que se utiliza das locações para colocar na tela belas e tristes imagens, com seu trabalho em cenas tais como a que Amir procura por Hassan após o torneio ou a volta do protagonista ao Afeganistão sendo especialmente dignas de atenção.
Na edição, Matt Chesse evita que a cronologia não-linear do filme confunda o espectador, deixando a história correr em um ritmo adequado. Já a trilha sonora de Alberto Iglesias, em seu primeiro trabalho com Forster, falha em alguns momentos, como quando exagera no ritmo de guitarras em certa cena, mas tem um resultado bastante positivo no geral.
É interessante notar a semelhança das trajetórias de Amir com a de Briony, personagem do recém-lançado "Desejo e Reparação", com ambos sendo romancistas tentando expiar seus pecados de infância que resultaram em tragédias para aqueles que amam. A fita ainda encontra eco em outra película a ser lançada em breve, "Jogos do Poder", onde poderemos acompanhar como o Afeganistão saiu das mãos dos soviéticos e o poder naquele país caiu nas mãos dos fundamentalistas islâmicos do Talibã.
Bastante emocionante e bem realizado, "O Caçador de Pipas" conta uma história tocante, sendo recomendado àqueles que buscam algo além de diversão rápida no cinema.
